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17-09-19 09:19

Enquanto o mundo olha para Amazônia, Cerrado e Pantanal também queimam

No Cerrado, o fogo também vem consumindo a vegetação nativa em velocidade mais acelerada que em 2018

Enquanto o mundo olha com atenção para o desmatamento e as queimadas na Amazônia, outros dois biomas brasileiros, o Cerrado e o Pantanal, também queimam em proporções maiores que nos últimos anos, resultado das mesmas políticas de desmatamento que assolam o norte do país.

Os dados de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Pantanal fechou o mês de agosto deste ano com 4.660 focos de incêndio, 235% mais do que no mesmo período do ano passado e 50% a mais do que a média histórica entre 1998 e 2018. Nos primeiros dias de setembro, os focos chegaram a 1.495, 4 vezes mais que no mesmo período de 2018.

Na última quinta-feira, o governo do Mato Grosso do Sul - Estado que concentra o bioma Pantanal - decretou estado de emergência depois que mais de 1 milhão de hectares, segundo o Ibama, terem sido consumidos pelo fogo.

Corumbá (MS) é hoje a cidade com mais focos de queimadas, 3.180 --597% a mais do que no mesmo período de 2018.

No Cerrado, o fogo também vem consumindo a vegetação nativa em velocidade mais acelerada que em 2018. Em apenas 8 meses e meio, já são 37.055 focos, próximo dos dados do ano inteiro de 2018, que alcançaram 39.449.

Os focos de incêndio no bioma em setembro, época em que normalmente já tendem a diminuir, estão 76% maiores que no ano passado, chegando a 9.520. Na Amazônia, depois da crise internacional, este mês registrou até agora 9.262 focos.

"O fogo causado por ações humanas, acidentais ou

propositais, ocorrem todo ano, até mais de uma vez por ano, e no auge da época seca, abrangendo áreas muito extensas, milhões de hectares como atualmente, impacta/destrói qualquer ecossistema", disse à Reuters Alberto Setzer, coordenador do programa de queimadas do Inpe.

Uma combinação de uma seca mais forte do que o normal nas duas regiões e uma onda de calor ajudam as queimadas a se propagarem no Pantanal e no Cerrado, mas a origem é, como quase sempre, a ação humana.

"Nos cerrados e nas savanas o fogo é um elemento natural do ecossistema. Mas não existem plantas adaptadas ao fogo, mas a um regime de fogo, que depende do intervalo das queimas, da intensidade, da época do ano", explica a pesquisadora da Universidade de Brasília Mercedes Bustamente, especialista em ecologia de ecossistemas.

"Se essa região começa a queimar muito frequentemente, as árvores e arbustos começam a morrer, vai abrindo a área e ficam as gramíneas, que se recuperam mais rapidamente, mas trazem mais material combustível."

As pesquisas com o Cerrado mostram que a vegetação maior se favorece de queimadas a um intervalos não menores de quatro anos e quando acontecem no início da estação seca. Mercedes explica que um mês de setembro --quando as plantas já começam a nascer as folhas para se preparar para a estação úmida-- com um alta proporção de queimadas, dificulta muito a regeneração.

Ao contrário da Amazônia, o Cerrado brasileiro tem uma proteção de apenas 20% da sua área por propriedade, de acordo com o código florestal. Os proprietários de terras da região precisa preservar apenas 20% da sua mata nativa. Hoje, boa parte dessa região é dominada por plantações, especialmente de soja, e pecuária.

De acordo com pesquisas da UnB, o desmatamento na região pode estar por trás de secas que atingiram fortemente o centro-oeste e até mesmo São Paulo nos últimos anos. Mercedes explica que o solo do cerrado funciona como uma esponja: absorve a chuva e a umidade que vem da Amazônia e a distribui às bacias hidrográficas do resto do país, do Sudeste até o Rio São Francisco.

"A posição mais alta do Planalto Central, com solos profundos, argilosos, que funcionam como uma esponja, recebem essa água que drena depois para cursos de água no resto dos biomas, para a bacia do São Francisco, para o Pantanal", explica. "A falta de cobertura vegetal prejudica a infiltração da água no solo."

O Cerrado é propenso a queimadas naturais, causadas por raios, mas isso costuma ocorrer apenas no início da seca da região. O aumento exponencial nesta época do ano tem relação direta com desmatamento.

"As queimadas estão concentradas no arco do desmatamento. Quando o produtor já converteu para agricultura e está regular, ele não quer queimar porque ele vai ter prejuízo. Mas o fogo é uma ferramenta de abertura de áreas", diz a pesquisadora.

O desmatamento no Cerrado também tem relação com o aumento dos focos de incêndio do Pantanal. Apesar de ser um dos biomas melhor preservados no país, as áreas baixas que compõe o Pantanal são cercadas de áreas mais altas formadas pelo Cerrado. Desmatadas, com mais agricultura, essas áreas absorvem menos água, que escorrem menos para o Pantanal. Mais seco, ele queima mais - como se vê no aumento deste ano.

O Bioma Cerrado

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O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando uma área de 2.036.448 km2, cerca de 22% do território nacional. A sua área contínua incide sobre os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima e Amazonas. Neste espaço territorial encontram-se as nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata), o que resulta em um elevado potencial aquífero e favorece a sua biodiversidade.

Considerado como um hotspots mundiais de biodiversidade, o Cerrado apresenta extrema abundância de espécies endêmicas e sofre uma excepcional perda de habitat. Do ponto de vista da diversidade biológica, o Cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo, abrigando 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas. Existe uma grande diversidade de habitats, que determinam uma notável alternância de espécies entre diferentes fitofisionomias. Cerca de 199 espécies de mamíferos são conhecidas, e a rica avifauna compreende cerca de 837 espécies. Os números de peixes (1200 espécies), répteis (180 espécies) e anfíbios (150 espécies) são elevados. O número de peixes endêmicos não é conhecido, porém os valores são bastante altos para anfíbios e répteis: 28% e 17%, respectivamente. De acordo com estimativas recentes, o Cerrado é o refúgio de 13% das borboletas, 35% das abelhas e 23% dos cupins dos trópicos.

Além dos aspectos ambientais, o Cerrado tem grande importância social. Muitas populações sobrevivem de seus recursos naturais, incluindo etnias indígenas, quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, babaçueiras, vazanteiros e comunidades quilombolas que, juntas, fazem parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro, e detêm um conhecimento tradicional de sua biodiversidade. Mais de 220 espécies têm uso medicinal e mais 416 podem ser usadas na recuperação de solos degradados, como barreiras contra o vento, proteção contra a erosão, ou para criar habitat de predadores naturais de pragas. Mais de 10 tipos de frutos comestíveis são regularmente consumidos pela população local e vendidos nos centros urbanos, como os frutos do Pequi (Caryocar brasiliense), Buriti (Mauritia flexuosa), Mangaba (Hancornia speciosa), Cagaita (Eugenia dysenterica), Bacupari (Salacia crassifolia), Cajuzinho do cerrado (Anacardium humile), Araticum (Annona crassifolia) e as sementes do Barú (Dipteryx alata).

Contudo, inúmeras espécies de plantas e animais correm risco de extinção. Estima-se que 20% das espécies nativas e endêmicas já não ocorram em áreas protegidas e que pelo menos 137 espécies de animais que ocorrem no Cerrado estão ameaçadas de extinção. Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana. Com a crescente pressão para a abertura de novas áreas, visando incrementar a produção de carne e grãos para exportação, tem havido um progressivo esgotamento dos recursos naturais da região. Nas três últimas décadas, o Cerrado vem sendo degradado pela expansão da fronteira agrícola brasileira. Além disso, o bioma Cerrado é palco de uma exploração extremamente predatória de seu material lenhoso para produção de carvão.

Apesar do reconhecimento de sua importância biológica, de todos os hotspots mundiais, o Cerrado é o que possui a menor porcentagem de áreas sobre proteção integral. O Bioma apresenta 8,21% de seu território legalmente protegido por unidades de conservação; desse total, 2,85% são unidades de conservação de proteção integral e 5,36% de unidades de conservação de uso sustentável, incluindo RPPNs (0,07%).

Pantanal

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O bioma Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. Este bioma continental é considerado o de menor extensão territorial no Brasil, entretanto este dado em nada desmerece a exuberante riqueza que o referente bioma abriga. A sua área aproximada é 150.355  km² (IBGE,2004), ocupando assim 1,76% da área total do território brasileiro. Em seu espaço territorial o bioma, que é uma planície aluvial, é influenciado por rios que drenam a bacia do Alto Paraguai.
 
O Pantanal sofre influência direta de três importantes biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica. Além disso sofre influência do bioma Chaco (nome dado ao Pantanal localizado no norte do Paraguai e leste da Bolívia). Uma característica interessante desse bioma é que muitas espécies ameaçadas em outras regiões do Brasil persistem em populações avantajadas na região, como é o caso do tuiuiú – ave símbolo do Pantanal. Estudos indicam que o bioma abriga os seguintes números de espécies catalogadas: 263 espécies de peixes, 41 espécies de anfíbios, 113 espécies de répteis, 463 espécies de aves e 132 espécies de mamíferos sendo 2 endêmicas. Segundo a Embrapa Pantanal, quase duas mil espécies de plantas já foram identificadas no bioma e classificadas de acordo com seu potencial, e  algumas apresentam vigoroso potencial medicinal.

Apesar de sua beleza natural exuberante o bioma vem sendo muito impactado pela ação humana, principalmente pela atividade agropecuária, especialmente nas áreas de planalto adjacentes do bioma. De acordo com o Programa de Monitoramento dos Biomas Brasileiros por Satélite – PMDBBS, realizado com imagens de satélite de 2009, o bioma Pantanal  mantêm 83,07% de sua cobertura vegetal nativa.

Assim como a fauna e flora da região são  admiráveis, há de se destacar a rica presença das comunidades tradicionais como as indígenas, quilombolas, os coletores de iscas ao longo do Rio Paraguai, comunidade Amolar e Paraguai Mirim, dentre outras. No decorrer dos anos essas comunidades influenciaram diretamente na formação cultural da população pantaneira.

Apenas 4,6% do Pantanal encontram-se protegidos por unidades de conservação, dos quais 2,9% correspondem a UCs de proteção integral e 1,7% a UCs de uso sustentável (BRASIL, 2015).

Edição Site TV Assembleia

Fontes: Jornal do Brasil | Reuters | Ministério do Meio Ambiente
Imagem: Ecoa



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