Beber qualquer quantidade de álcool coloca o coração em risco, diz estudo
01/04/2022 13:20

Na semana passada, dois pacientes perguntaram ao cardiologista Stanley L. Hazen, da Clínica Cleveland, nos Estados Unidos, quanto álcool consumido diariamente beneficiaria sua saúde cardíaca.

Hazen respondeu aos dois com o conselho médico amplamente aceito: uma média de uma dose de álcool por dia protege o coração.

"Não pensei duas vezes antes de responder", comentou.

Então ele viu um artigo publicado na JAMA Network Open com informações que revolucionaram suas ideias sobre o que dizer a seus pacientes. Esse artigo, diz Hazen, "mudou minha vida por completo".

A conclusão do artigo é que não existe nível de consumo de álcool que não provoque risco de doença cardíaca. O risco é baixo se as pessoas tomam em média sete doses de álcool por semana se comparadas a nenhuma. Mas cresce rapidamente conforme aumenta o consumo.

"O número de doses faz uma diferença grande", disse Krishna G. Aragam, cardiologista preventivo no Massachusetts General Hospital e um dos autores do estudo. "É preciso entender que quando vamos além do consumo modesto, o risco aumenta muito."

O estudo, que pode ajudar a resolver divergências médicas sobre os efeitos do álcool sobre o coração, envolveu análises sofisticadas dos genes e dados médicos de quase 400 mil pessoas que participam do UK Biobank, repositório britânico usado por pesquisadores para estudar genes e sua relação com a saúde. A idade média dos sujeitos selecionados para a pesquisa sobre o consumo de álcool foi de 57 anos, e eles disseram que tomam em média 9,2 doses de bebida por semana.

Alguns pesquisadores relataram que o consumo modesto de álcool protege o coração, isso porque quem bebe de forma moderada no geral têm menos doenças cardíacas que pessoas que bebem muito ou são abstêmias. Aragam e seus colegas também constataram esse efeito. Mas a razão, segundo eles, não é que o álcool proteja o coração. É que os que consomem de forma leve a moderada —até 14 doses de álcool por semana— tendem a ter outras características que reduzem seu risco, como fumar menos, exercitar-se mais e pesar menos que as pessoas que bebem muito ou as que não bebem.

Segundo Aragam, não se sabe por que aqueles que consomem moderadamente tendem a ser mais saudáveis que os abstêmios. Mas o estudo do Biobank não perguntou por que as pessoas bebem ou se abstêm de beber. Em vez disso, procurou separar os efeitos do álcool sobre o coração dos efeitos de outros hábitos, comportamentos e características. Os pesquisadores utilizaram para isso um método conhecido como randomização mendeliana.

Cientistas encontraram variantes genéticas que predispõem uma pessoa a beber mais ou menos. Pelo fato de serem distribuídas aleatoriamente na população, as variantes podem servir em um estudo como o equivalente a escolher sujeitos aleatoriamente para se absterem de álcool ou para beberem em níveis diversos. Os pesquisadores podem perguntar se as pessoas com variantes ligadas ao consumo maior de álcool apresentam mais doença cardíaca e hipertensão que as pessoas com variantes ligadas ao consumo menor.

A análise estatística realizada pelos pesquisadores revelou uma curva de risco exponencial com as variantes genéticas que sugerem que as pessoas bebem mais. Os riscos de doença cardíaca e hipertensão começaram a subir lentamente, acompanhando o aumento das doses de álcool consumidas. Mas esse aumento se intensificou rapidamente, chegando a níveis altos quando as pessoas entraram na faixa do consumo abusivo de álcool, com 21 doses semanais ou mais.

Os riscos reais para cada indivíduo dependem de a pessoa apresentar outros problemas, como diabetes ou obesidade. Mas, disse Aragam, extrapolando a partir dos resultados do estudo, uma pessoa típica de meia-idade participante do estudo que não bebia tinha chance estimada em 9% de sofrer doença cardíaca coronariana. Uma pessoa que tomava uma dose de álcool por dia tinha risco estimado em 10,5%, que é baixo. A partir disso, porém, o risco aumentava rapidamente.

Muitas pesquisas anteriores sobre consumo de álcool e saúde cardíaca foram observacionais, ou seja, os sujeitos foram acompanhados ao longo do tempo para verificar se havia uma relação entre seu consumo de álcool e sua saúde cardíaca.

Segundo os pesquisadores, esses estudos encontraram correlações, mas não determinaram causa e efeito. Já o uso de randomização mendeliana na pesquisa da Biobank é mais sugestivo de causalidade, de modo que seus resultados podem ter mais peso.

"Precisamos começar a pensar nesses níveis moderados de consumo e informar os pacientes", disse Aragam. "Se a pessoa opta por beber, precisa saber que passando de um certo nível o risco cresce substancialmente. E, se ela opta por beber menos, terá benefício maior se baixar para até sete doses de álcool por semana."

Hazen, o cardiologista de Cleveland, disse que o novo estudo do Biobank o levou a especular sobre os efeitos do aumento do consumo de álcool durante a pandemia. Pesquisadores observaram que as pessoas vêm bebendo mais desde que a pandemia começou, e um estudo recente concluiu que o número de mortes ligadas ao álcool subiu 25% em 2020.

A pressão sanguínea das pessoas também subiu durante a pandemia. Hazen e seus colegas concluíram, a partir de dados nacionais, que ela subiu em média quase três milímetros.

"Não tínhamos ideia de como isso estava acontecendo", disse Hazen.

As mudanças de peso corporal dos participantes não foram responsáveis pela alta de pressão sanguínea durante a pandemia. O aumento, que ocorreu em todos os 50 estados americanos e em Washington, é um mistério.

Agora Hazen tem uma nova hipótese. "Talvez o aumento do consumo de álcool seja responsável pela alta na pressão arterial", sugeriu.

Tradução de Clara Allain

Com informações Folha de São Paulo
Imagem: Brett Carlsen/The New York Times

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