Fechamento de fábricas da Ford repercute pelo Brasil
12/01/2021 15:33

A Ford anunciou nesta segunda-feira, 11, o fim de uma história de um século de produção de carros no Brasil. A montadora, que já tinha encerrado a produção em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, comunicou que vai fechar neste ano as demais fábricas no País: Camaçari (BA), onde produz os modelos EcoSport e Ka, Taubaté (SP), que produz motores, e Horizonte (CE), onde são montados os jipes da marca Troller.

Serão mantidos no Brasil a sede administrativa da montadora na América do Sul, em São Paulo, o centro de desenvolvimento de produto, na Bahia, e o campo de provas de Tatuí (SP).

Em comunicado, a Ford informa que tomou a decisão após anos de perdas significativas no Brasil. A multinacional americana acrescenta que a pandemia agravou o quadro de ociosidade e redução de vendas na indústria.

"A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil e sabemos que essas são ações muito difíceis, mas necessárias, para a criação de um negócio saudável e sustentável", afirmou, em nota, Jim Farley, presidente e CEO da Ford.

A produção será encerrada imediatamente em Camaçari e Taubaté, mantendo-se apenas a fabricação de peças por alguns meses para garantir disponibilidade dos estoques de pós-venda. A fábrica da Troller em Horizonte continuará operando até o quarto trimestre de 2021.

As vendas do EcoSport e do Ka serão encerradas assim que terminarem os estoques. A empresa informa que vai trabalhar "imediatamente" em colaboração com os sindicatos e outros parceiros no desenvolvimento de um plano "justo e equilibrado" para minimizar os impactos do encerramento da produção. Primeira indústria automobilística a se instalar no Brasil, a Ford está no Brasil desde 1919.

A decisão de fechar as linhas de manufaturas brasileiras segue uma reestruturação dos negócios na América do Sul.

A montadora diz que seguirá importando no Brasil utilitários esportivos, picapes, como a Ranger, e veículos comerciais de fábricas da Argentina, Uruguai e outras origens, mantendo "assistência total" ao consumidor brasileiro com operações de vendas, serviços, peças de reposição e garantia.

Informou ainda que planeja acelerar o lançamento de diversos novos modelos conectados e eletrificados.

Anúncio da Ford demonstra falta de credibilidade do governo, diz Maia

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou nesta segunda-feira (11) que a decisão da Ford de fechar todas as fábricas no Brasil é reflexo da falta de credibilidade do governo.

"O fechamento da Ford é uma demonstração da falta de credibilidade do governo brasileiro, de regras claras, de segurança jurídica e de um sistema tributário racional. O sistema que temos se tornou um manicômio nos últimos anos, que tem impacto direto na produtividade das empresas", afirmou Maia em rede social.

Segundo ele, é necessário proporcionar segurança jurídica para a iniciativa privada. "Espero que essa decisão da Ford alerte o governo e o Parlamento para que possamos avançar na modernização do Estado e na garantia da segurança jurídica para o capital privado no Brasil", disse.

Outros políticos, inclusive da base aliada do governo, criticaram o governo pelo anúncio.

O deputado federal Marcos Pereira (Republicanos-SP), ex-ministro da Indústria e cujo partido integra o centrão, afirmou que a decisão é lamentável e afirmou que a situação econômica do país pode ter reflexos nas eleições em 2022.

"Se é verdade que saúde econômica pode decidir as eleições presidenciais, com estes anúncios, podemos dizer que 2022 está logo aí, e, quem viver verá", disse.

Pereira também criticou o Ministério da Economia, defendendo que a pasta de Paulo Guedes tenha um olhar "mais amigável" para quem gera empregos.

Pereira ainda relembrou a frase de um dos secretários de Guedes, Carlos da Costa (de Produtividade, Emprego e Competitividade), a executivos da General Motors há cerca de um ano: "Se precisar fechar, fecha". Procurado, Costa não retornou até o fechamento deste texto.

Ciro Gomes, candidato a presidente em 2019, afirmou que a decisão da Ford é um desastre e pediu a saída de Jair Bolsonaro (sem partido) da presidência.

"Que desastre, meu Deus do céu!", afirmou em rede social. "Nosso país segue afundando no processo de desindustrialização. Bolsonaro vai liquidar nossa nação! Congresso, cumpra seu dever: impeachment já!", disse.

Nelson Barbosa, ministro da Fazenda e do Planejamento no governo de Dilma Rousseff, afirmou que esse é "mais um desastre do governo Temeraro".

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) afirmou que bravatas não vão solucionar os problemas do país. "Lembram quando Bolsonaro disse que se a esquerda vencesse na Argentina nossos vizinhos fugiriam desesperados para cá? Pois a Ford vai fechar todas as fábricas no Brasil e manter a produção no Uruguai e Argentina. Bravata não gera emprego nem vai tirar o país do buraco", disse.

A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) afirmou que respeita e lamenta a decisão da Ford. E disse que a decisão corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano sobre a ociosidade local e global e a falta de medidas que reduzam o custo no Brasil.

'Faltou à Ford dizer a verdade: eles querem subsídios', afirma Bolsonaro

O presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou nesta terça-feira, 12, a apoiadores que o fechamento dos parques fabris da Ford no Brasil aconteceu porque a empresa "perdeu para a concorrência" e "em um ambiente de negócios, quando não se tem lucro, se fecha". "Assim é na vida e na nossa casa", completou o presidente que disse lamentar a escolha da montadora de encerrar a produção no País e do fechamento de 5 mil postos de trabalho.

Em dezembro do ano passado, a empresa comunicou um programa de investimentos de US$ 580 milhões (cerca de R$ 3,17 bilhões) na Argentina.

Segundo Bolsonaro, "faltou à Ford dizer a verdade: eles querem subsídios".

O presidente da República afirmou também que a montadora recebeu R$ 20 bilhões em renúncia fiscal do governo e subsídios e questionou aos apoiadores se estes gostariam de continuar "dando R$ 20 bilhões a eles".

Senadores criticam Jair Bolsonaro por demissões na Ford e no Banco do Brasil

O fechamento das três fábricas da Ford no Brasil mobilizou senadores nas redes sociais. A companhia norte-americana anunciou na segunda-feira (11) o encerramento das atividades em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). A medida pode provocar a demissão de 5 mil trabalhadores brasileiros.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE) atribuiu a decisão da Ford ao "fracasso" da política econômica do presidente Jair Bolsonaro. "Perder 5 mil empregos no Brasil e ver que a Ford anunciou um investimento de R$ 3 bilhões na Argentina é perceber que não dá mais para tolerar um fracassado na Presidência que não enxerga que precisamos de uma proposta econômica efetiva que garanta emprego e renda para o Brasil", escreveu.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) criticou a atuação do ministro da Economia, Paulo Guedes. "As reformas trabalhista e da Previdência deram os resultados que tinham que dar: desemprego e aumento da desigualdade. Não melhorou nossa economia! Tudo isso aliado à política econômica irresponsável e à falta de credibilidade mundial de Guedes e Bolsonaro, são fatores determinantes para empresas como a Ford deixarem de atuar no país. Uma tragédia em larga escala!", disse.

Para o senador Humberto Costa (PT-PE), o fechamento das fábricas é resultado de "um governo sem diálogo, sem perspectiva, uma desorganização total". Para o senador Paulo Rocha (PT-PA), a demissão de trabalhadores da Ford é exemplo da "política de Paulo Guedes e Bolsonaro a todo vapor".

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) disse que o fechamento das fábricas da Ford não pode ser encarado como uma "notícia normal". "Em dezembro, foi a Mercedes. O mercado tem suas regras, mas certamente os fatos demonstram que faltam ao governo federal políticas industriais e de emprego competentes. Lamentável", escreveu.

Para o senador Fabiano Contarato (Rede-ES), a decisão da companhia norte-americana é "mais um ‘legado’ do governo Bolsonaro". "O encerramento do parque industrial da Ford, após mais de um século de operação, ceifando 5 mil empregos diretos. O Brasil, sem liderança, afugenta investidores e entra na espiral de desemprego e desindustrialização", afirmou.

O senador Otto Alencar (PSD-BA) criticou a decisão da Ford. Ele lembrou que, para operar na Bahia, a empresa "teve doação de terreno, isenções fiscais federais e estaduais, equalização das taxas de juros e empréstimos de longo prazo". "A Ford pratica capitalismo selvagem. Não merece respeito", escreveu.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN) classificou a saída da Ford como "um retrocesso". "Mais um recibo passado pelo desastroso governo Bolsonaro à economia e ao povo brasileiro!", afirmou. Prates compartilhou em suas redes sociais uma publicação do governador da Bahia, Rui Costa (PT), que também criticou a política econômica do presidente Jair Bolsonaro. "O encerramento da Ford no Brasil é consequência falta de confiança em nosso país, fruto da inoperância e politicagem do governo federal. Seguimos perdendo negócios, pois não existe segurança institucional. Vamos trabalhar para atrair investidores e lutar por esses empregos", afirmou Costa.

Quem também lamentou a saída da companhia norte-americana foi o presidente Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. "O fechamento da Ford é uma demonstração da falta de credibilidade do governo brasileiro, de regras claras, de segurança jurídica e de um sistema tributário racional. O sistema que temos se tornou um manicômio nos últimos anos, que tem impacto direto na produtividade das empresas", escreveu.

Em resposta a Rodrigo Maia, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) compartilhou uma publicação do ex-chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten. "A Ford mundial fechou fábricas no mundo porque vai focar sua produção em SUVs e picapes, mais rentáveis. Não tem nada a ver com a situação política, econômica e jurídica do Brasil. Quem falar o contrário mente e quer holofotes", escreveu Wajngarten.

Demissões no Banco do Brasil

Outro tema que mobilizou os senadores nas redes sociais foi o plano de demissão voluntária anunciado na segunda-feira pelo Banco do Brasil. A instituição espera o desligamento de 5 mil funcionários e o fechamento de 361 unidades. "São 361 agências fechadas pelo Banco do Brasil. Muitas cidades do interior vivem de uma agência assim. É claramente o desmonte do banco para que seja vendido. Onde esse governo vai parar?", questionou no senador Humberto Costa.

O senador Jean Paulo Prates classificou a decisão do banco como "mais um desmonte de empresas estatais importantes para a economia do nosso Brasil". "A contribuição do governo Bolsonaro para a crise é forçar ainda mais a redução e a venda das atividades da Petrobras, do Banco do Brasil, da Eletrobras, dos Correios entre outros grandes conglomerados autossuficientes e lucrativos, jogando ainda mais gente na rua", criticou.

Para o senador Paulo Rocha, é preciso "resistir à privatização". "O Banco do Brasil é uma das empresas públicas mais lucrativas do país. Não vamos deixar este governo genocida privatizar um banco com 212 anos de contribuição para economia do povo brasileiro", afirmou.

Sindicato dos Metalúrgicos quer que a Ford reverta demissões

O Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e Região (Sindmetau) quer que a Ford reveja a decisão de fechar as fábricas no Brasil e mantenha os empregos. Segundo o presidente do Sindicato, Claudio Batista, os trabalhadores foram "pegos de surpresa" com a decisão anunciada na segunda-feira (11).

Além da planta de Taubaté, a Ford vai fechar a fábrica de Camaçari, na Bahia. A fábrica da Troller, em Horizonte (CE), vai encerrar as atividades até o fim deste ano. Serão mantidos, entretanto, a sede administrativa para a América do Sul em São Paulo, o Centro de Desenvolvimento de Produto na Bahia e o Campo de Provas em Tatuí (SP). A produção de veículos na região ficará concentrada na Argentina e no Uruguai.

Manutenção de empregos

"O sindicato vai fazer toda luta necessária para tentar reverter essa situação", disse Batista. De acordo com ele, os 830 funcionários da fábrica em Taubaté tinham estabilidade no emprego até o fim de 2021, devido a um acordo de redução de jornada e salários feito no ano passado, em razão da pandemia do novo coronavírus (covid-19). A unidade da montadora na cidade está há 53 anos de atividade.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) evitou comentar diretamente as razões e os impactos do fechamento das fábricas no Brasil. 

"A Anfavea não vai comentar sobre o tema. Trata-se de uma decisão estratégica global de uma das nossas associadas. Respeitamos e lamentamos", disse a entidade em nota.

No entanto, a associação comentou que os custos de produção têm afetado as montadoras no país. "Isso corrobora o que a entidade vem alertando há mais de um ano, sobre a ociosidade da indústria (local e global) e a falta de medidas que reduzam o Custo Brasil".

Para a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a alta carga tributária é um dos fatores que dificulta a manutenção da produção industrial no país. "A Fiesp tem alertado sobre a necessidade de se implementar uma agenda que reduza o Custo Brasil, melhore o ambiente de negócios e aumente a competitividade dos produtos brasileiros. Isso não é apenas discurso. É a realidade enfrentada pelas empresas", disse em nota a federação.

Com informações imprensa nacional

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