América Latina é apontada como novo epicentro da pandemia e Brasil é o país que mais preocupa
22/05/2020 16:22

A América Latina é o novo epicentro da pandemia de coronavírus e o Brasil é o país mais preocupante, disse nesta sexta (22), em entrevista pela internet, Michael Ryan, diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Com 1.188 novas mortes por coronavírus nas 24 horas entre quarta (20) e quinta (21), segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil bateu novo recorde de mortes diárias e passou de 20 mil óbitos. É o terceiro com mais casos no mundo, 310.087 casos confirmados até quinta, atrás dos EUA e da Rússia.

Estimativas também divulgadas nesta sexta pelo Imperial College indicam que a transmissão da doença continua acelerando no Brasil. A taxa de contágio (Rt), que indica para quantas pessoas em média cada infectado transmite o coronavírus, foi calculada em 1,3 (quando está acima de 1, a transmissão está fora de controle).

O centro de epidemiologia da universidade, referência no acompanhamento de doenças transmissíveis, calcula que 6.980 mortes ocorram nesta semana, variando de 5.850 a 8.070. O número estimado é o maior número entre os 54 países com transmissão ativa (ao menos cem mortes registradas desde o começo da pandemia e pelo menos dez mortes nas últimas duas semanas).

Em segundo lugar está o Reino Unido, com 2.400 mortes na semana, mas com uma taxa de contágio de 0,84, o que mostra a transmissão sob controle. Os Estados Unidos não entraram nesta edição porque foram objeto de um estudo em separado, com comparações entre seus estados.

Sobre o estado da pandemia no Brasil, Michael Ryan afirmou que, embora o maior número de casos seja em São Paulo, a situação mais séria é a do Amazonas, que tem o maior número de casos em relação à população.

O diretor-executivo mencionou espontaneamente a aprovação pelo Brasil do uso de cloroquina para o tratamento de Covid-19 e ressaltou que não há evidências de que o medicamento seja eficaz para combater a doença. A OMS apoia o uso de cloroquina apenas em estudos clínicos em hospital, e sob acompanhamento médico.

Ainda respondendo à pergunta sobre o Brasil, a líder técnica da OMS, Maria van Kerkhove, afirmou que os países devem ficar atentos para o fato de que há grupos vulneráveis, com menos acesso a tratamentos de saúde e menos informações, e que governos precisam garantir que todos possa ser testados e tratados caso estejam contaminados pelo coronavírus.

Indícios apontam que o Sars-Cov-2 circulava no Brasil antes do primeiro diagnóstico oficial

O novo coronavírus circula no Brasil antes do primeiro diagnóstico oficial. A afirmação consta em análises feitas pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e é reforçada por descobertas recentes feitas no Brasil e no mundo em relação ao Sars-Cov-2, nome oficial do vírus.

O primeiro diagnóstico oficial do novo coronavírus no país foi em 26 de fevereiro. O paciente, um empresário de 61 anos, havia retornado recentemente da Itália, que começava a enfrentar uma explosão de casos de covid-19.

Era período pós-Carnaval quando o primeiro caso foi confirmado. A partir de então, o Brasil entrou na rota do novo coronavírus, que já circulava em diversos países. Na época, o país com mais casos no mundo era a China, onde foram feitos os primeiros registros.

Análises feitas por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que havia casos do novo coronavírus no Brasil antes de fevereiro. Esses levantamentos apontam que na quarta semana epidemiológica, entre 19 e 25 de janeiro, havia ao menos um caso de Sars-Cov-2 no país.

Já a transmissão comunitária — quando não é possível identificar a origem da infecção —, confirmada oficialmente em 13 de março, teria começado no Brasil na primeira semana de fevereiro, segundo estudos feitos no IOC/Fiocruz.

Esses levantamentos trazem informações importantes sobre a trajetória do novo coronavírus no Brasil. Com base nesses dados, é possível compreender que o vírus já circulava pelo país antes do Carnaval, período em que há muitas aglomerações e pode ter facilitado ainda mais a propagação do Sars-Cov-2. Além disso, mostram que houve mortes por covid-19 antes do primeiro óbito confirmado no país, em 17 de março.

Essas apurações feitas por pesquisadores tiveram como base registros sobre Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no país.

Uma apuração do Ministério da Saúde, por meio de secretarias estaduais, reforça a tese de que havia pessoas infectadas pelo Sars-Cov-2 no Brasil antes de 26 de fevereiro. Isso porque a pasta divulgou recentemente que quase 40 casos, antes do primeiro diagnóstico oficial, estão sendo investigados no país.

Descobrir os primeiros casos no Brasil é considerado importante para que seja possível avaliar a trajetória do vírus no país, analisar casos de subnotificações e estudar as características do Sars-Cov-2 por aqui.

Descoberta na França sobre paciente com o vírus no fim de dezembro causou repercussão em todo o mundoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionDescoberta na França sobre paciente com o vírus no fim de dezembro causou repercussão em todo o mundo

Oficialmente, o primeiro caso do Brasil ainda é o do paciente diagnosticado em 26 de fevereiro. Porém, há, ao menos, três pontos que indicam que o Sars-Cov-2 chegou ao Brasil antes do primeiro diagnóstico oficial: os registros de SRAG, as descobertas recentes sobre a origem do coronavírus em outros países e notificações suspeitas encaminhadas ao Ministério da Saúde.

Os registros de SRAG

Em anos anteriores, o Infogripe, sistema da Fiocruz, registrou uma média de 250 casos em fevereiro. Porém neste ano, no mesmo período, os registros de SRAG tiveram aumento histórico em todo o Brasil, principalmente em meados de fevereiro. Apenas na semana de 23 a 29 do mês, 662 pessoas foram internadas no país com sintomas como febre, tosse, dor de garganta e dificuldade respiratória. As notificações são referentes a hospitais públicos e privados.

A SRAG, hoje altamente associada à covid-19, também pode ser causada por outros vírus como influenza, adenovírus ou os coronavírus sazonais que já circulavam anteriormente. No entanto, especialistas apontam que não há nenhum indicativo de que os vírus conhecidos em anos anteriores circularam mais intensamente, entre janeiro e fevereiro, neste ano.

Especialistas da Fiocruz fizeram análises moleculares retrospectivas em amostras de SRAG e encontraram um caso de Sars-Cov-2 na quarta semana epidemiológica, um mês antes do primeiro diagnóstico oficial.

Além disso, análises feitas por meio do MonitoraCovid-19, plataforma do sistema do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), apontou que, desde a sexta semana epidemiológica, entre 2 e 8 de fevereiro, há aumento sustentado nos números de SRAG no país.

Os indícios apontam que desde o início de fevereiro há transmissão comunitária do novo coronavírus no país.

Primeiros casos do novo coronavírus foram descobertos em Wuhan, na China. Origem do vírus ainda é incerta e é alvo de pesquisasDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionPrimeiros casos do novo coronavírus foram descobertos em Wuhan, na China. Origem do vírus ainda é incerta e é alvo de pesquisas

Os dados referentes a registros de SRAG no país reforçam as informações do primeiro estudo que apurou o início da transmissão comunitária do Sars-Cov-2 no Brasil. O estudo usou uma metodologia estatística de inferência, a partir de óbitos por SRAG que foram registrados antes do primeiro caso confirmado. O levantamento mostrou que a disseminação comunitária do novo coronavírus começou de duas a quatro semanas antes dos primeiros diagnósticos.

O estudo para apurar a transmissão do coronavírus no Brasil foi feito pelo IOC/Fiocruz em parceria com a Fiocruz-Bahia, Universidade Federal do Espírito Santo e Universidade da República (Udelar), no Uruguai. O trabalho, que ainda passará por revisão dos pares, foi publicado na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz.

Para chegar a um levantamento sobre o início da transmissão comunitária no Brasil, os pesquisadores analisaram o crescimento exponencial de números de mortes por SRAG. O dado é considerado pelos especialistas como a informação mais confiável sobre o progresso da epidemia, em razão dos poucos testes feitos inicialmente e do grande número de pacientes assintomáticos — entre os mais jovens, a ausência de sintomas pode ser comum em 70% deles.

Assim, consideraram que o tempo médio entre a infecção e o óbito por covid-19 é de, aproximadamente, três semanas. Os estudiosos consideraram também que a taxa de mortalidade da doença é de, aproximadamente, 1%. Desta forma, aplicaram um método estatístico para avaliar o início da pandemia, a partir do número acumulado de mortes. Esse levantamento apontou que a transmissão comunitária no Brasil, assim como em outros países, começou semanas antes do primeiro diagnóstico oficial.

A chegada do vírus em outros países

Diversos levantamentos mostram que, assim como a pesquisa que analisou o cenário no Brasil, a transmissão comunitária do Sars-Cov-2 em regiões da Europa e nos Estados Unidos começaram até quatro semanas antes dos primeiros diagnósticos.

Enquanto o Brasil e outros países ainda tomavam as medidas iniciais, como monitorar os viajantes que vinham do exterior, o vírus já estava sendo transmitido em seus territórios.

Gráfico da Fiocruz mostra a quantos dias o número de casos dobra no paísDireito de imagemMONITORA COVID-19 FIOCRUZ
Image captionGráfico da Fiocruz mostra a quantos dias o número de casos dobra no país

A circulação do Sars-Cov-2 teve início antes de orientações como a restrição de viagens aéreas e o distanciamento social, segundo o estudo liderado pelo IOC/Fiocruz. No Brasil, por exemplo, essas medidas mais duras, para evitar a propagação do vírus, foram adotadas somente após a confirmação da transmissão comunitária em diferentes Estados.

Pesquisadores que participaram do estudo ressaltam que o "período bastante longo de transmissão comunitária oculta" reforça a dimensão do desafio de rastrear a disseminação do novo coronavírus. Em razão disso, apontam que seria fundamental que medidas de controle fossem tomadas desde os primeiros diagnósticos de casos importados.

Pelo mundo, diversos países investigam casos anteriores aos primeiros diagnósticos conhecidos até então.

Os primeiros registros do novo coronavírus foram relatados pela China à Organização Mundial de Saúde (OMS) em 31 de dezembro. Casos anteriores no país asiático são investigados. O principal objetivo é descobrir o primeiro paciente infectado pelo novo coronavírus em Wuhan, cidade que enfrentou o primeiro surto de Sars-Cov-2 no mundo. Por meio dessa descoberta, cientistas poderão chegar à origem do vírus e como se deu a primeira transmissão para humanos.

Assim como o primeiro epicentro do novo coronavírus, os Estados Unidos, que hoje é a região com mais casos e mortes por covid-19 no mundo, também investigam pacientes que tiveram o vírus em período anterior ao conhecido atualmente.

Em meados de abril, autópsias de dois pacientes que morreram na Califórnia nos dias 6 e 17 de fevereiro revelaram que eles haviam sido infectados pelo Sars-Cov-2. O fato fez com que o país alterasse seus dados sobre a covid-19, pois até então a primeira morte havia sido confirmada em 26 de fevereiro, no Estado de Washington.

Entre os casos antigos descobertos recentemente, uma situação na França, no início de maio, causou surpresa em todo o mundo. O primeiro registro do novo coronavírus havia sido confirmado em meados de janeiro no país. No entanto, uma descoberta recente mudou o que se sabia da trajetória do vírus na região.

Novas análises em exames de um homem de 43 anos, feitos em 27 de dezembro passado, apontaram que ele havia sido infectado pelo Sars-Cov-2. O paciente, na época diagnosticado com pneumonia, tem 43 anos e mora em Bobigny, nos arredores de Paris.

gráfico com número de casos no brasil, na itália, na china e nos eua

O homem se recuperou após fazer o tratamento para pneumonia, ainda no fim de dezembro. Depois de descobrir que havia contraído o novo coronavírus, ele disse que não sabia como pode ter sido infectado pelo vírus. Ele não havia viajado recentemente a outros países. O fato demonstrou que o vírus chegara à Europa antes do que se imaginava.

Após o caso na França, a OMS relatou que é possível que outros casos iniciais venham à tona em outras regiões. O porta-voz da organização, Christian Lidmeier, pediu que os países verifiquem os registros de casos semelhantes, para esclarecer sobre a trajetória do vírus em todo o mundo.

Os casos investigados no Brasil

Na semana passada, o Ministério da Saúde divulgou que analisa 39 casos suspeitos do novo coronavírus que teriam surgido antes do primeiro diagnóstico no país.

O secretário substituto de Vigilância em Saúde, Eduardo Macário, disse que 25 desses casos foram em São Paulo e os outros estão em oito Estados. Os registros foram identificados no sistema de informação nacional.

Macário disse que foram enviados ofícios aos Estados para que eles apurem as informações. A pasta não descarta que algumas dessas datas tenham sofrido erros no registro. Os casos suspeitos ainda estão sendo apurados pelas secretarias estaduais.

No início de abril, um erro do Ministério da Saúde causou grande repercussão. Na época, foi anunciado que fora descoberto que uma mulher morreu em decorrência do novo coronavírus em 23 de janeiro, em Minas Gerais. No entanto, posteriormente, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou que houve falha de digitação e que o óbito ocorrera em março. Ao corrigir a informação, Mandetta citou que somente apurações futuras podem identificar o início do vírus no Brasil. Ele, porém, não descartou que o Sars-Cov-2 tenha começado a circular no Brasil desde janeiro ou dezembro.


Com informações Notícias ao Minuto/Folhapress/BBC News

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