Após o coronavírus, o mundo não votará a ser o que era, dizem especialistas
01/04/2020 09:52

A entrevista do biólogo Átila Iamarino no programa Roda Viva, da TV Cultura, de São Paulo, na noite de segunda-feira, continua repercutindo. Umas das vozes no Brasil mais ponderadas e didáticas nesta crise causada pela pandemia de COVID-19, ele reafirmou o que vem dizendo em vídeos na internet que já foram vistos por mais de 5 milhões de pessoas: “Não quero dizer que o mundo que a gente vivia nunca mais vai voltar, mas não é para ele que vamos voltar. Vai ser diferente, talvez mais unido”.

Formado pela USP, onde fez doutorado em microbiologia, e com pós-doutorado em Yale (EUA), o biólogo foi um dos primeiros a prever a morte de até 1 milhão de brasileiros, caso as medidas de isolamento social suspensão de atividades não fossem aplicadas. Para isso, se embasou em estudo do Imperial College de Londres. 

Como quase a totalidade das autoridades de saúde, Átila defende o isolamento social como forma mais eficaz para conter a disseminação do novo coronavírus, mesmo que isso seja sacrificante para muitos. "Ainda vamos demorar muito para circular pelas ruas e nunca mais o faremos como antes. Enquanto não existirem testes e vacina contra coronavírus, certamente usaremos máscaras. Isso só não é feito hoje porque não há máscaras suficientes disponíveis (e a prioridade é para profissionais de saúde), e não porque não deveríamos usá-las", disse. "Está provado que as cidades onde sempre se usou máscaras se recuperaram mais rapidamente”. 

Após o coronavírus, o mundo não voltará a ser o que era, diz ...

Átila criticou o chamado isolamento vertical proposto pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que só atinge pessoas dos grupos considerados de risco, como aqueles acima de 60 anos. Segundo ele, não há base científica nem mesmo para se começar uma discussão nesse sentido e, quando houver, é algo que “precisa ser testado. Aí, sim, podemos falar a respeito”.

Como tudo nos último anos no Brasil, a questão de saúde pública também ganhou contornos políticos. O biólogo, porém, procurou evitar a polarização e destacou que o importante é que todos unam esforços para minimizar riscos e poupar vidas durante a pandemia. 

"A gente depende das ações que estão sendo tomadas. Os estados todos pararam a circulação, colocaram as pessoas em quarentena, restringiram o comércio. Eu sinto que a gente está em um momento em que a casa está pegando fogo, a gente quer tirar todo mundo de casa para não perder ninguém e não importa quem acendeu o fogo, se o bombeiro é de direita ou de esquerda. Estão tomando ações para fazer isso? Está ótimo. Se estiver atrapalhando o que os estados estão fazendo, está atrapalhando o que o mundo inteiro está fazendo”, afirmou. 

Ele ressalta ainda que apenas um país, a Belarus, não adotou medidas para tentar conter o novo coronavírus. E defende que o investimento em ciência volte a todo vapor no Brasil. “O Brasil está parado numa fase de não investir na ciência nacional. Isso não é uma coisa de agora. É uma coisa que vem de longa data. Nós temos pessoas que estão preparadas para fazer testes, mas que descobriram recentemente que tiveram suas bolsas científicas cortadas”, disse ele, referindo-se a um amigo pesquisador.  

Repercussão

As declarações de Átila repercutiram bastante nas redes sociais, com a entrevista sendo um dos assuntos mais comentados do Twitter na manhã desta terça-feira (31). Até quem é apoiador incondicional do presidente Jair Bolsonaro elogiou a postura do biólogo. 

“Muito boa e esclarecedora a entrevista no Roda Vida”, publicou o apresentador Ratinho, do SBT. ”Isso aponta que vamos ter de rever muitas coisas daqui para frente, atitudes e comportamentos”. 

Mudanças de comportamento, na economia e no trabalho: como as epidemias transformam o mundo

Ainda é cedo para saber que estragos a onda de covid-19 fará em todo o planeta, mas a ocorrência de outras grandes epidemias ou pandemias ao longo da história deixa uma certeza: o mundo será um lugar diferente depois que a maré do coronavírus refluir.

Em séculos anteriores, a disseminação explosiva de doenças ajudou a abalar impérios e alterar modelos econômicos, redesenhou cidades e favoreceu mudanças de comportamento. A dimensão inédita da crise atual para uma geração inteira, segundo especialistas, deverá trazer consequências culturais e práticas, como a rediscussão do papel do Estado a fim de resgatar economias esfaceladas, a valorização de sistemas públicos de saúde e transformações no regime de trabalho — com estímulo ao desempenho de atividades à distância. A sociedade pós-pandêmica poderá apresentar mais restrições à circulação de pessoas entre fronteiras, mas também uma busca ainda maior por cooperação científica internacional.

— Vai ser um choque no sentido de que, em países como o Brasil, as últimas gerações ficaram longe de guerras ou crises econômicas brutais. Os mais jovens não lembram nem de hiperinflação. Agora, viveremos a lógica do cisne negro, a de que o imponderável acontece — afirma o psicanalista Mário Corso, fazendo referência a uma crença consolidada de que só existiam cisnes brancos no mundo, antes de ser descoberta a variação de penas escuras.

Esses sustos, embora não tão frequentes, acompanham a humanidade há eras. Há indícios de que uma variante da bactéria da peste bubônica se alastrou há cerca de 5 mil anos, conforme um estudo de cientistas franceses, suecos e dinamarqueses publicado em 2018. O primeiro evento mais bem documentado mostrou o potencial que têm as pandemias: no ano de 165, a disseminação de uma doença que poderia ser a varíola desorganizou o Império Romano e contribuiu para, tempos depois, a desintegração de sua fração oriental. O trauma já provocado pelo novo coronavírus tem potencial para alterar mais uma vez o curso da história, embora seja precipitado dizer o quanto.

— Essa pandemia se comporta como um choque que ocorre em uma conjuntura prévia da economia internacional de desaceleração econômica configurando, no atual momento, a emergência de uma tempestade perfeita,  quando existe a conjugação de diferentes forças negativas — avalia o professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima Elói Martins Senhoras, autor do ensaio Coronavírus e o Papel das Pandemias na História Humana.

Quando determinadas pestes deixam de ser locais, o conhecimento também atravessa fronteiras.

JEAN SEGATA

Doutor em Antropologia Social e professor da UFRGS

O tamanho do estrago, segundo Senhoras, vai depender de como os governos atuarem para frear o vírus e os seus efeitos. No passado, a ocorrência de epidemias como a de febre amarela, no Brasil do século 19, levaram até a novas configurações nas cidades.

— No Rio, Barata Ribeiro (ex-prefeito) derrubou cortiços no centro do Rio e refez a paisagem urbana. Pereira Passos deu continuidade e queria até derrubar morros e aterrar a baía de Guanabara por acreditar que eram fontes de contaminação — afirma o doutor em Antropologia Social e professor da UFRGS Jean Segata.

Hoje, como já existem condições de saneamento e conhecimento científico muito mais avançados, mudanças tendem a ser menos visíveis. Uma consequência provável, segundo Segata, será a intensificação de outro processo decorrente das epidemias: a união global de esforços na área da saúde.

— A adoção de padrões comuns e a tentativa de produzir uma saúde global se deu a partir de epidemias. Quando determinadas pestes deixam de ser locais, o conhecimento também atravessa fronteiras — afirma o antropólogo, que também estuda epidemias.

Impactos econômicos também costumam ser consideráveis em emergências globais de saúde. O impacto da Peste Negra no século 14, quando eliminou um terço da população europeia, foi tão forte que favoreceu o fim do regime de servidão que vigorava sobre os camponeses. O cenário atual ainda é incerto, embora o Brasil já tenha reduzido a perspectiva de crescimento do PIB de mais de 2% para próximo de zero. Mas tudo indica que a necessidade de recuperação levará a uma rediscussão do papel do Estado como indutor do desenvolvimento.

— Quem está comandando as ações são os governos nacionais, regionais e municipais. Acredito que essa crise trará um deslocamento forte (de protagonismo) para o Estado, que deverá ter um papel dominante e investir em políticas públicas para vencer esses efeitos negativos — analisa o economista Alfredo Meneghetti Neto.

Para a doutora em Psicologia Social e professora da Unisinos Marília Veríssimo Veronese, com atuação na área de Saúde Coletiva, isso resultará em uma obrigatória revalorização do SUS:

- Essas epidemias expõem a necessidade de criar ou aperfeiçoar a institucionalidade da saúde pública.



Fonte: Correio Brasiliense - Por Paulo Galvão / Gauchazh
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