Pandemia - Especialistas explicam sobre os riscos de adoção só do isolamento vertical
25/03/2020 17:10

Durante pronunciamento nesta terça-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a orientação do governo federal será que a população adote, a partir de agora, o "isolamento vertical" —deixando apenas idosos, pessoas com comorbidades preexistentes e indivíduos infectados ou com sintomas causados pelo novo coronavírus fora das atividades de suas comunidades.

O discurso chocou, além de boa parte da sociedade, médicos e entidades de saúde, já que as recomendações do presidente foram contrárias ao que os especialistas vêm dizendo há semanas. A SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), por exemplo, apontou que a pandemia é grave e afirmou estar preocupada com a fala de Bolsonaro porque as declarações podem dar a falsa impressão de que as medidas de contenção social são inadequadas.

Por que o isolamento vertical não é efetivo

Em seu discurso, Bolsonaro defendeu a reabertura de escolas e comércios, mas se as pessoas que circularem normalmente na sociedade morarem com indivíduos do grupo de risco, esses continuarão expostos aos riscos do novo coronavírus.

"Os idosos brasileiros, por exemplo, muitas vezes moram com crianças e, geralmente, são cuidados por alguém mais jovem —nossa estrutura familiar é diferente da europeia. Existe o familiar que fornece alimentos, dá medicações... Essa pessoa pode ser o vetor", explica Igor Marinho, infectologista do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Alexandre Cunha, infectologista do Hospital de Brasília, aponta que também existe o risco de sobrecarga do sistema de saúde por muitos casos em pacientes jovens. "Embora a imensa maioria desses casos vá ser leve, pelo grande número de acometidos em curto espaço de tempo podemos ter superlotação do sistema de saúde, com indisponibilidade de leitos para tratar outras doenças, que não deixarão de ocorrer."

Crise deve ser levada a sério

O médico do Hospital das Clínicas aponta outros erros na fala do presidente: "Ele chama a covid-19 de gripezinha ou resfriadinho, o que não são boas palavras para uma pandemia que já matou milhares. Além disso, ele afirma que o vírus terá menos potencial aqui por conta do clima tropical. Essa informação é falsa e já vemos países do hemisfério sul e locais como a Califórnia, estado americano com clima quente, registrando muitos óbitos", indica Marinho.

Preocupação com a economia é justa

Alexandre Naime Barbosa, infectologista e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), aponta que, apesar de ninguém saber qual será o futuro, —com ou sem isolamento rígido— cada aposta tem riscos potenciais.

"Embora o isolamento social restrito traga consequências econômicas ruins, temos que lembrar que outros países que não o fizeram de forma adequada hoje têm cenários trágicos. Basta saber no que o Brasil quer apostar", diz.

Para Marinho, o lockdown, ou isolamento horizontal (no qual a recomendação é todos ficarem em casa), é necessário no momento atual.

"Temos, sim, que ter uma preocupação com os empregos e o sustento das famílias, mas do ponto de vista científico e epidemiológico, a melhor opção é pedir para que o máximo possível de pessoas fique em casa. Estamos lidando com uma doença dinâmica e de potencial muito grave", opina.

Entidades de saúde se manifestaram

Além da SBI, outras entidades declararam não concordar com o discurso do presidente. Até Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS (Organização Mundial de Saúde) respondeu à fala de Bolsonaro, dizendo que as UTIs estão lotadas em muitos países.

José Luiz Gomes do Amaral, presidente da APM (Associação Paulista de Medicina), afirmou que se a intenção de Bolsonaro foi acalmar, a reação da sociedade mostra que ele não alcançou seus objetivos. "Você não traz esperança minimizando o problema, mas reforçando as soluções".

Já a SOGESP (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo) declarou que vê com extrema preocupação o pronunciamento. "Claro que devemos considerar eventuais impactos socioeconômicos do isolamento social, mas vidas humanas têm de ser prioridade sempre".

A SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) concordou que a fala do líder é temerária e que ao pregar o fim do isolamento social como estratégia de resposta à pandemia de COVID-19, o presidente contraria todas as evidências científicas.

Frida Liane Plavnik, presidente da SBH (Sociedade Brasileira de Hipertensão) afirmou que as medidas individuais de proteção e higiene são fundamentais na tentativa de diminuir o contágio
e lembrou que em todo o mundo, os países que demoraram em tomar essas medidas têm sofrido maior número de casos e fatalidades.

Em nota, a SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) declarou que "qualquer medida que abrande o isolamento da população será extremante prejudicial para o combate ao coronavírus".

Isolamento vertical não conteria a epidemia

Na manhã desta quarta-feira (25), o presidente Jair Bolsonaro declarou que iria conversar com o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, para rever os métodos de contenção do novo coronavírus. O presidente defende o chamado isolamento vertical, ou seja, que apenas idosos, pessoas com doenças pré existentes ou com suspeita de infecção fiquem em casa. Por esse raciocínio, escolas, faculdades, empresas e comércios deveriam ser reabertos. 

É uma lógica diferente do isolamento horizontal, que vem sendo gradualmente adotado no Brasil e tem como objetivo isolar o máximo possível de pessoas para conter a propagação do vírus. Com menos gente sendo infectada, a sobrecarga sobre os hospitais é menor, e o número de mortos também. O Brasil tem menos de dois leitos hospitalares para cada mil pessoas. Se o SARS-CoV-2 se espalhar de forma descontrolada, será muito difícil evitar o colapso do sistema de saúde.

O isolamento vertical vai contra essa ideia – e coloca vidas em risco. Imagine que você more com seus pais, avós ou até um irmão diabético (grupos de risco). A instrução é para que eles fiquem em casa, mas você segue trabalhando, utilizando transporte público, tendo contato com possíveis infectados, até que acaba levando o vírus para casa. Ou seja: as pessoas dos supostos grupos de risco acabam sendo expostas à Covid-19. A mesma coisa poderia acontecer se as crianças retornarnassem às escolas: elas poderiam transmitir o vírus a seus avós. 

Além disso, apesar de as pessoas mais jovens não estarem nos grupos de risco, elas também podem ser infectadas e desenvolver formas graves da doença. Uma pesquisa realizada pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA aponta que 53% dos pacientes internados em UTI eram maiores de 65 anos – ou seja, 47% não eram idosos.  

Até o dia 23 de março, o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson, defendia o isolamento vertical. Após 335 mortes, estabeleceu uma quarentena no país. Cenário conflitante também ocorreu na Itália, em que, ainda em fevereiro, a prefeitura de Milão defendia a reabertura de museus e restaurantes. A situação se manteve até 8 de março, quando foi declarado o fechamento do país – já com 366 óbitos registrados. 

Até o momento, o Brasil conta com 47 mortes – 40 delas em São Paulo – e 2.281 infectados. Ainda não há vacina ou remédio para prevenção ou tratamento da Covid-19. Enquanto isso, a recomendação do Ministério da Saúde continua sendo o distanciamento social (só é permitido sair de casa em situações cruciais) e a higienização das mãos com água e sabão. 

Com informações UOL Viva Bem e Superinteressante

Edição Site TV Assembleia

Fontes: UOL e Superinteressante
Imagem: Superinteressante
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