Sentinela dos pulmões: Células podem evitar patógenos de entrar nos órgãos
08/06/2019 14:52

Nos primeiros dias após a infecção do organismo pela bactéria tuberculose, uma enxurrada de células do sistema imunológico é ativada para lutar contra a doença. Agora, pesquisadores da Universidade Médica de Washington e do Instituto de Pesquisa de Saúde da África afirmam ter identificado um tipo celular que coordena essa ação nesses dias considerados cruciais para eliminar do corpo o micro-organismo. O estudo, publicado na revista Nature, sugere que estimular a atividade dessas células pode ajudar a prevenir o patógeno letal de entrar nos pulmões, reduzindo, assim, dezenas de milhares de novas infecções que ocorrem anualmente.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram em decorrência da doença em 2017, fazendo dela a enfermidade infecciosa mais letal do mundo. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, houve 72 mil novos casos em 2017 e, anualmente, 4,5 mil morrem da infecção. Embora exista vacina, ela só fornece boa proteção contra as formas mais severas da tuberculose em crianças pequenas, sendo menos efetiva nas mais velhas e nos adultos. Ainda que amplamente usada, a imunização não consegue interromper a transmissão da doença, e um quarto da população mundial é infectada pela bactéria.

“A resposta imune à bactéria depende da resposta precoce dessa célula, o que nos abre um caminho totalmente novo para o controle da tuberculose”, diz Shabaana Adbul Khader, professor da Universidade de Washington e coautor do estudo. “Agora, podemos começar a pensar em formas de mirar nessa célula para ajudar o corpo a lutar contra a bactéria antes que ela tenha a chance de se estabelecer no organismo”, continua. “Resultados positivos de diversos testes de vacinas fazem deste um excelente momento para trabalhar na imunologia da tuberculose. O quanto mais entendermos sobre a interação entre a bactéria que causa a doença e as pessoas, maiores as chances de vencer essa epidemia letal”, comenta Alasdir Leslie, do Instituto de Pesquisa de Saúde da África.

Defesa ajustada

As vacinas são desenhadas para avisar o sistema imunológico sobre micróbios perigosos, ao apresentar pequenos pedaços dos patógenos às células imunológicas adaptativas. Essas, por sua vez, podem lembrar o que já viram antes e respondem rapidamente se os micro-organismos surgirem. O ideal é que isso ocorra antes que eles se multipliquem e causem doenças. Mas, no caso da tuberculose, a imunidade adaptativa, sozinha, mesmo após vacinação, pode ser muito devagar para proteger os humanos.

Na pesquisa publicada na revista Nature, Khader, Leslie e os demais autores estudaram animais e seres humanos para identificar as células imunes e as proteínas que defendem o organismo contra a bactéria da tuberculose nos primeiros dias após a infecção. Eles descobriram que um grupo chamado células linfoides inatas 3 (ILC3, sigla em inglês) desempenha papel crucial nas primeiras duas semanas de infecção. Elas pertencem ao ramo do sistema imunológico inato que detecta e responde a invasores estranhos ao corpo. Biólogos acreditam, há tempos, que esse sistema, contudo, não tem memória para determinados micróbios, embora recentemente estudos tenham mostrado que algumas células que o compõe consigam recordar dos patógenos.

Os experimentos mostraram que, dentro de cinco dias após a infecção, as ILC3 estavam a postos nos pulmões, onde lançaram compostos químicos que ativam e atraem outras células imunológicas. As estruturas convocadas incluem outras células inatas — que chegam carregadas de armas matadoras de bactérias —, assim como células adaptativas do sistema imune que dirigem e melhoram o desempenho do grupo inato. Juntas, elas cercam e matam os micro-organismos.

Os pesquisadores notaram que, em ratos sem as células ILC3, as respostas demoravam e havia dificuldade de lutar contra as bactérias. Os compostos químicos ativadores da defesa são lançados tardiamente, as células imunes demoram a chegar aos pulmões, as bactérias não são cercadas e destruídas e, consequentemente, os roedores ficam mais doentes e têm mais bactérias da tuberculose nos pulmões. Quando os cientistas injetaram essas células nos animais, a resposta imunológica foi desencadeada, e a contagem bacteriana não chegou a números muito altos.

“Essas células linfoides inatas parecem orquestrar toda a cadeia de respostas imunes precoces — tanto inatas quanto adaptativas — de que você precisa para controlar a infecção”, diz Khader. Em pessoas e animais com tuberculose, as ILC3 congregam-se nos pulmões, especialmente em estruturas imunológicas que cercam e matam a bactéria. Depois de tratadas de forma bem-sucedida com antibióticos, as ILC3 tornam-se mais abundantes na corrente sanguínea, sugerindo que elas não são mais necessárias no pulmão para lutar contra a infecção.

BCG 

Desenvolvedores de vacinas ignoraram por muito tempo o sistema imune inato, já que pensavam que ele não tinha a habilidade de se lembrar de micróbios específicos. Mas estudos recentes mostraram que as células desse sistema podem ter memória ou serem treinadas para ficar mais efetivas, fortificando, portanto, as defesas do organismo e fornecendo proteção de amplo espectro. A vacina antituberculose, conhecida como BCG, foi desenvolvida há um século e tem como alvo o sistema imunológico adaptativo. Porém, acredita-se, agora, que ela funciona também, em parte, treinando o sistema inato.

“As crianças que recebem a BCG estão protegidas não só contra a tuberculose, mas contra diferentes doenças infecciosas e até câncer por alguns anos”, diz Khader. “Elas têm taxas mais baixas de doenças e mortes por todas as causas, comparado àquelas que não foram vacinadas. Não queremos substituir a vacina, mas, sim, encontrar um composto que possa ser usado para melhorar a imunidade nas crianças imunizadas quando os efeitos da BGC começarem a diminuir.”

O grupo do cientista já começou a testar uma série de compostos químicos. “Ainda é uma questão aberta se as ILCs nos pulmões são treináveis ou têm memória e quanto tempo o treinamento ou a memória dura”, afirma Khader. “Mas se pudermos treiná-las e conseguir uma população dessas células prontas para ir para os pulmões, isso pode ser uma maneira de conseguirmos uma vacina mais efetiva contra a tuberculose.”

“A resposta imune à bactéria depende da resposta precoce dessa célula, o que nos abre um caminho totalmente ovo para o controle da tuberculose”, Shabaana Adbul Khader, professor da Universidade de Washington e coautor do estudo.

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Fonte: Correio Brasiliense
Imagem:  Philips/Divulgacao 
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